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Reportagem



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Campeonato Mundial 2000 - Compiègne/França


Data: 17/01/2001


O QUE ACONTECEU NO MUNDIAL DA FRANÇA, SEGUNDO A DRA. TANJA HESS



Como veterinária integrante da equipe Brasileira de Enduro não poderia deixar de expressar minha opinião sobre a carta desabafo que Cacá escreveu.

Todos nós enduristas sabemos que nunca, anteriormente houve o patrocínio desta forma de uma equipe de Mundial de Enduro. Graças ao Diretor de Enduro, Cacá, que todos cavaleiros puderam levar seus próprios cavalos para competir no Mundial.

Todos, primeiramente, deveriam se lembrar disso. Cacá é um apaixonado pelo esporte e com muita dedicação conseguiu o patrocínio dos cavaleiros. Devemos lembrar também que ele não ganha nada com isso, só dores de cabeça.

Como foi relatado por ele, a prova seletiva realmente foi ruim. Caso fosse uma prova normal do campeonato somente o Faissal teria terminado a prova. Como não havia escolha os seguintes cavalos foram selecionados: Metro, mesmo com a desistência do cavaleiro, e Saad, que ao final da prova mancou e cuja amazona praticamente desistiu da prova nos últimos dois anéis, percorrendo-os a 4 km/h.

Posteriormente houve uma segunda chance, uma outra prova em Holambra da qual não pude participar, onde foram selecionados Morgan e Conan pois terminaram a prova de 120 km em boa condição.

A outra esperança da equipe era o try out na França, onde três cavaleiros iriam tentar sua classificação. Infelizmente só um cavaleiro terminou a prova.

Quando cheguei à França, Dácio e Neimar já estavam com os cavalos a algum tempo. Conan estava com um pouco de edema nos membros após um treino forte que foi feito as vésperas de minha chegada. Metro havia se acidentado e estava com escoriações que não traziam maiores problemas. Saad também estava sendo tratado com gelo após o treino forte. Nos exames clínicos que pude acompanhar após a minha chegada, houve vários pequenos problemas que foram solucionados com compressas de gelo e outros que persistiam como a prova de flexão positiva do membro anterior direito de Saad. Infelizmente, a égua Genaliah não se encontrava na hípica. Questionei o Cacá porque a égua não estava presente e ele respondeu que o Dr. Prazeres não havia achado necessária a vinda da égua antes da entrada dos animais no hipódromo. Nós veterinários tínhamos que selecionar o cavalo reserva até a entrada dos animais no hipódromo. Para mim, que só participei dos exames clínicos durante o tempo que estive na França, no momento de nossa decisão final, os três cavalos que poderiam ocasionar problemas e por isso eram passíveis de ser o cavalo reserva eram: o Conan, que apresentava problemas antigos, mas que no nosso exame decisivo final estavam controlados; o Saad, que consistentemente apresentava prova de flexão positiva do membro anterior direito; e Genaliah, que só foi examinada por nós pouco antes da entrada dos animais no hipódromo, e apresentava prova de flexão positiva do anterior direito e leve dor nos ligamentos suspensórios de ambos anteriores.

A mim como técnica, só restava ouvir o relato dos veterinários dos animais examinados: Saad tinha uma sinovite (inflamação da capsula articular, neste caso do boleto) do anterior direito que havia sido tratada no Brasil e segundo relatos estava controlada; e Genaliah, que havia terminado o try out anteriormente, mas que não tinha problemas segundo seu veterinário particular.

Caso Genaliah tivesse chegado antes, uma ultrassonografia poderia ter sido feita para melhor julgamento do problema.

Tivemos uma reunião entre nós veterinários. O chefe dos veterinários achava que tínhamos que ter uma opinião consensual sobre a escolha do cavalo reserva. Infelizmente, nesta argumentação apenas clínica, não pudemos ver radiografias ou ultrassonografias recentes dos cavalos. Tinha certeza que qualquer que fosse nossa decisão haveria insatisfação. Concordei com a premissa de que um cavalo infiltrado no boleto as vésperas da prova seria menos provável de mancar (Saad) do que um cavalo com uma desmite (Genaliah) que não era tratável neste momento.

Porém não deixo de dizer e afirmar: uma desmite crônica (inflamação do ligamento suspensório), diagnosticada apenas clinicamente, pode ser melhor que uma sinovite sub-aguda (era crônico e voltou a se agudizar), e isto só poderia ser avaliado objetivamente mediante a realização de ultrassonografias.

Na minha opinião PARTICULAR tanto fazia a égua ou o cavalo competirem. Só achei desagradável que nós veterinários, que estávamos acompanhando os cavalos, tivéssemos que infiltrar um cavalo as vésperas de uma prova. Os problemas deveriam ter sido solucionados antes da ida dos animais para a França.

Após a nossa reunião comunicamos ao Cacá a nossa decisão consensual. Ele ouviu nossa opinião e deu a sua própria. Cacá tinha uma opinião diferente da nossa. Sua escolha era por Genaliah, pois o conjunto havia terminado o try-out em boas condições e em media horária razoável.

Durante esta reunião, nós veterinários havíamos combinado que qualquer que fosse a decisão final, haveria respeito entre as opiniões e que não haveria discussão pública entre as partes. Eu particularmente não discordei da opinião de Cacá. Os fatos que ocorreram posteriormente só são lamentáveis. Exceto é claro, a finalização dos três conjuntos que foi excelente. O bate-boca de nossa equipe na frente de todos, no meio do hipódromo, na frente do escritório central da prova só somaram pontos negativos para nosso país. Onde estava aquela equipe que em outros Mundiais só sorria e tinha algum espirito de equipe?

Foi mais desagradável ainda o que aconteceu com a égua Genaliah.

Obviamente, o fato da égua amanhecer com um membro anterior totalmente edemaciado, sem apoiá-lo no chão, no dia seguinte daquela discussão, só poderia levar a pensamentos de que algo havia sido feito contra a égua (como em qualquer lugar do mundo!). O clima só piorou.

Acho que faltou muito espirito de equipe. Todos os sete cavaleiros sabiam que um cavalo seria o reserva!

Erramos como veterinários , na minha opinião, por não termos sido mais rígidos na escolha dos animais aqui no Brasil. Isto deve ser levado em consideração nos próximos Mundiais.

Os resultados de Lica, Fernando e Henrique foram excelentes e nossa equipe terminou em oitavo lugar. Em parte da prova estava em segundo lugar! Cacá fez muito pela equipe. Nunca antes houve um patrocínio assim e nunca um Diretor de Enduro se dedicou tanto, de coração, a uma equipe. Talvez se tivesse existido mais bom senso e espírito de equipe, nada de ruim teria acontecido.

Tanja Maria Hess




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