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Reportagem



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BILTMORE CHALLENGE ENDURANCE RIDE


Data: 21/05/2001


The wild, wild west: Esse esporte é maravilhoso porque traz à tona o espírito pioneiro dos norte-americanos. E essas pessoas são felizes fazendo o que fazem.

 

Igual ao caramujo que carrega sua casa nas costas, os norte-americanos atravessam o país com seus trailers em busca de aventuras. É assim o enduro nos EUA. Mais de 90% dos praticantes são enduristas no seu dia-a-dia. Desde o despertar até o entardecer, cuidam dos cavalos, treinam, mantendo-os sempre prontos para qualquer prova.

Um dos aspectos mais importantes do enduro nos EUA concentra-se na educação dos cavaleiros e amazonas em relação ao cuidado, manutenção e bem-estar dos cavalos. E isso pude comprovar in loco, no dia 5 de maio, em Asheville, Carolina do Norte, quando pelo nono ano consecutivo aconteceu uma das provas mais importantes do calendário da AERC: o Biltmore Challenge Endurance Ride, no Biltmore State. O catarinense Gregório Diaz, montando Maqina (de propriedade de Tracy Webb-Hoskins, que concorreu montando Gilbriar Go Gdan) participou da prova representando o Brasil. Infelizmente, no terceiro vet check a égua, foi desqualificada por apresentar sintomas de cansaço.

A prova, dividida em duas categorias (CEI-A 100 milhas / 160k) e CEI-B 50 milhas (80 km), além de fazer parte do calendário da FEI e da AERC, pontuava também para o 12º Campeonato Regional da IAHA (International Arabian Horse Association), para o campeonato da SERA (Southeast Endurance Riders Association) e servia como seletiva para o Campeonato Pan-Americano, a ser realizado no dia 25 de agosto, na cidade de Woodstock (Vermont) e para o Mundial em Jerez de La Frontera, Espanha, em 2002.

Diferentemente das provas realizadas no Brasil, nos EUA os organizadores têm como preocupação básica e fundamental a escolha do local onde será realizada a prova e, principalmente, a trilha. O local tem que fornecer a infra-estrutura necessária: espaço, muito espaço. Tem que ser amplo o suficiente para acomodar não só os trailers dos participantes, mas também com espaço para que se possam fazer piquetes para os cavalos, pois não têm baias. Esses piquetes são montados ao lado, ou atrás das “casas temporárias”, com muito feno, capim e água para os animais. Outro diferencial é que mesmo sendo prova FEI, os cavalos não ficam confinados em baias, mas em piquetes e sem a necessidade de seguranças, além de serem rígidos em relação aos horários de inspeção, briefing e largada.

Dois outros detalhes me chamaram a atenção. Primeiro, o pequeno número de veterinários. "Não necessitamos de um número maior de veterinários do que já temos, pois existe um sistema que está funcionando satisfatoriamente que é uma parceria estabelecida através da comunicação e todos trabalham formando um time unido e forte", explicou Anne Ayala, presidente do comitê organizador da prova. Segundo, nenhum participante estava usando colete ou jaleco. Por que? Simples, é uma tradição nos EUA não utilizarem. O que diferencia os participantes de categorias diferentes é a numeração no cavalo. Por exemplo, se um cavaleiro/amazona está pontuando em três associações há uma marca que distingue cada uma delas.

Pode-se dizer que pelo fato de não utilizarem uma infra-estrutura complexa, envolvendo hotéis, baias, custo com alimentação e equipe de apoio, o esporte seja mais barato do que aqui. O investimento maior se concentra no trailer, pois ele será a residência durante os dias da prova e o meio de locomoção através dos EUA.

No caso da Biltmore Challenge, a prova foi realizada no Equestrian Center do Biltmore State, uma área com mais de 8.000 acres. Local amplo e arejado, com banheiros químicos (a única ressalva), pode acomodar os mais variados trailers acoplados em caminhonetes, ou caminhões, com espaço para locomoção de um até quatro cavalos. Os competidores levam tanto a sua alimentação quanto a dos animais. Não possuindo um staff de apoio, como no Brasil, eles são os tratadores, treinadores e veterinários. A equipe de apoio é formada pelo familiares somente, pois o enduro é um esporte que realmente envolve toda a família que lá está pelo mesmo motivo: curtir os cavalos, as viagens e as competições. E, em alguns casos, como pude comprovar, era o próprio cavaleiro ou amazona quem cuidava de tudo durante a prova, contando com a ajuda, algumas vezes, de outros enduristas.

Realizada há nove anos, este é o primeiro ano que a Biltmore Challenge faz parte do calendário da FEI. Segundo Anne Ayala, presidente do comitê organizador, “esta é uma das mais bonitas provas do leste americano, porque é realizada em um lugar histórico, um parque muito popular e bonito, onde se encontra a maior casa particular dos EUA.” Além do que, os melhores trilheiros trabalham no Biltmore State.

Anne Ayala, uma senhora muito simpática e com um espanhol fluente, natural da Flórida e residente em Asheville há 25 anos, é a manager do Biltmore Estate Equestrian Center. Praticante de enduro desde 1968, Anne trabalha como organizadora de provas há dez. Segundo ela, "os critérios para a escolha da trilha são simples: todos os melhores trilheiros estão aqui, em Biltmore State." Detalhe: foi convidada pela FEI a fazer parte da comissão organizadora do campeonato mundial, em 2002, na Espanha.

Ir a uma prova nos EUA com a participação de Valerie Kanavy e não entrevistá-la, é como ir a Roma e não ver o Papa. Sobre sua participação na Biltmore Challenge, Valerie disse que "esta prova é importante porque estou participando da Seletiva da região Leste para o Pan-Americano. Aqui, temos um sistema diferente de seleção: são quatro provas que contam para a seletiva, na região leste, e essa é uma delas."

Valerie lembrou que há alguns atrás deu uma clínica com Lica Leão e Malu Frisoni, em Pedreira, Interior de São Paulo, além de ter participado de uma prova. "Tenho amigos muito queridos no Brasil, país que gosto muito. Gostaria de poder voltar e participar de algumas provas, inclusive do Campeonato Brasileiro, mas o problema maior concentra-se nas datas, pois há uma coincidência entre as nossas provas e as do Brasil", salienta Valerie que tem recebido vários estudantes brasileiros e cavaleiros em seu rancho em Fort Valley, Virgínia.

Para se ter uma idéia da importância do enduro nos Estados Unidos, duas universidades estavam trabalhando na prova em pesquisas com os cavalos: uma de Ontário, Canadá, chefiada por Mike Lindinger (PhD Comparative Animal Physiology) e Gayle Ecker (Hon. B.A, B.Ed, M.Sc. Equine Exercise Physiology) do The Equine Performance Group, University of Guelph, fazendo um estudo sobre a perda de água e eletrólitos nos animais, se essa perda pode ser um dos fatores mais importantes na saúde e performance do cavalo durante um prova de enduro.

O segundo grupo de pesquisadores estava realizando um trabalho de pesquisa em pós-doutorado sobre a relação de perda de gordura e eletrólitos, durante uma prova de enduro, com a personalidade do animal: se mais calmo, ou agitado, perde menos ou mais. Shannon Brady, de Rutgers, era a veterinária-chefe da pesquisa, auxiliada pela brasileira Silvia Duarte e sob orientação da Dra. Sarah Ralston, do Departamento de Ciência Animal, da State University of New Jersey.

Fechando a matéria, quero expressar meus agradecimentos ao Gregório Diaz, meu mais novo amiguinho de infância, ao Marcelo Amorim e à Orbium por terem me proporcionado essa experiência inesquecível, me convidando para cobrir a prova. Se não fosse por eles, não estaria relatando o que é uma prova de enduro nos Estados Unidos. Plagiando Jô Soares: não quero ser abusada, mas abusando, podem me convidar de novo!!!!

Uma observação importante: tenham paciência, mas muita paciência, se algum dia acompanharem o Sérgio Iasi e o Gérson Acedo Vieira em compras em algum supermercado da vida. Também quero agradecer a eles por terem muita paciência em me “ensinar” a apoiar o Gregório na prova.

 

BILTMORE CHALLENGE 2001

100 MILHAS (160 km)

Vencedor: Stagg Newman, Jayel Super (Best Condition) - 12h21min07

Valerie Kanavy, Big Sky Chance (11º lugar, com 14h53min24)

Tracy Webb-Hoskins, Gilbriar Go Gdan (23º lugar, com 18h12min43)

Largaram: 69

Terminaram: 25

Tempo de prova: 18h45

50 MILHAS (80 km)

Vencedor: Alex Reis, BC Mytai - 5h07min58

Best Condition: Fabiuloussensation, Mark Elliott

Largaram: 123

Terminaram: 77

Tempo de prova: 10h29

BILTMORE CHALLENGE 2000

100 MILHAS (160 km)

Vencedor: Wendy Mattingley, Brown R. Timothy - 10h26

Best Condition: Mc Breathless, Nicki Young

Largaram: 53

Terminaram: 33

Tempo de prova: 19 horas

 

BILTMORE CHALLENGE 1999

100 MILHAS (160 km)

Vencedor: Debi Gordon, Saizahra _ 10h19

Best Condition: Peregrine, Stephen Rojek

Largaram: 41

Terminaram: 30

Tempo de prova: 18h11 horas

 

Fonte: Cidinha Franzão

cifranzao@ig.com.br


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