ENDURO ONLINE
Reportagem
O Maior Enduro de Minha Vida
Data: 28/02/97
A narrativa que se segue, foi feita pela endurista brasileira, Maria Aparecida J. Gazola Pinto, a
nossa Cida, durante sua viagem aos EUA, para disputar como integrante da equipe do Brasil, o
Campeonato Mundial de Enduro Equestre, realizado em Junction City/Kansas, em 21 de setembro
de 1996. Dos cinco integrantes da equipe brasileira, Cida foi a única a levar montaria do Brasil
para a competição, tendo os membros restantes alugado animais nos EUA.
Cida e Flisa,
se tornaram o primeiro conjunto brasileiro a completar uma prova internacional de enduro equestre
com 100 milhas, fora do Brasil. Além deste mérito, Cida é a única
endurista brasileira que concorreu nos dois únicos Campeonatos Mundiais em que o Brasil
esteve presente até hoje. Sua participação na Holanda/94 se deu com o cavalo
também brasileiro Truck, que apesar de uma acidose
apresentada às vésperas da competição, foi o conjunto da equipe
brasileira que mais milhas percorreu na prova, uma vez que nenhum dos integrantes da equipe de
então conseguiu completar o percurso.
Parabéns Cida e Flisa.
Eram 8:00 horas da manhã do dia 29 de agôsto de 1996, quando demos início a viagem
rumo a Junction City, Kansas/EUA. Retornei no dia 13 de outubro de 1996 às 6:00 horas da
manhã. Isto são 44 dias e 22 horas.
29 de agôsto: Varginha - Campinas (186 milhas - 6 horas)
O vôo para Miami iria sair às 18:00 horas e só acabou saindo no dia seguinte.
30 de agôsto: Campinas - Miami (+/- 8.100 milhas - 8 horas)
Saímos às 10:00 horas da manhã e aterrizamos em Miami às 17:00 horas
(hora local). Assim que aterrizamos fui informada que não poderia mais ver a Flisa e que só
poderia pegá-la no dia 6 de setembro, na quarentena.
31 de agôsto a 5 de setembro:
Do dia 31 de agôsto a 2 de setembro não conseguimos fazer nada pois era sábado,
domingo e segunda-feira seria feriado em Miami. No dia 3 logo cedo, começamos a procurar uma
forma de levar a Flisa para Junction City. Tentamos de diversas maneiras alugar um trailer. Foi
impossível porque os americanos têm medo de qualquer coisa que possa vir a dar em processo.
Caso o animal viesse a se machucar em um trailer alugado, eu poderia processar o proprietário. Sendo assim,
resolvemos comprar um trailer e quando arrumamos um, não conseguimos nenhuma locadora que nos
aluga-se um carro para puxa-lo. Voltamos a estaca zero. Um frete só para levá-la, ficaria
em US$ 8.000,00 ida e volta, o que era impossível. Então começamos a juntar
fretes regulares como Miami a Ocala, Ocala a Dallas e de Dallas a Junction City, e foi o que fizemos.
6 a 7 de setembro: Miami/Ocala/Dallas (+/- 1.500 milhas - 31 horas)
Finalmente eu iria ver a Flisa novamente, pois durante toda a semana não me deixaram vê-la.
Sómente o Dácio (um dos veterinários de nossa equipe) pode entrar na quarentena
no dia 4, porque já faziam quatro dias que ela não comia e eles haviam chamado um
outro veterinário que não tinha resolvido o problema. Compramos feno, enviamos
para a quarentena e ela comeu um pouco.
Eram 8:30 horas da manhã e o primeiro caminhão que iria transportar a Flisa já
estava estacionado no pátio da quarentena quando os portões foram abertos. Lá estava
ela, muito magra, mais que o normal, toda suja e pelichando muito, por causa do calor, foi caminhando
direto em direção ao caminhão, para o início da terceira etapa de nossa viagem.
Saímos às 10:00 horas do dia 6 de Miami, depois de pegar outro cavalo no jóquei
e chegamos às 16:00 horas (hora local) do dia 7 em Dallas. Passamos a noite e boa parte do dia seguinte
em Dallas.
8 a 9 de setembro: Dallas/Junction City (+/- 428 milhas - 11 horas)
Saímos às 19:00 horas do dia 8 e chegamos às 06:00 horas do dia 9, na
fazenda que iríamos ficar antes da prova.
10 a 20 de setembro:
Começamos o trabalho de adaptação da Flisa com a comida, a ajuda-la com
as dores musculares causadas pela viagem e reiniciamos o treinamento depois de 12 dias de parada.
21 de setembro: Dia da Prova
Distância: 100 milhas (160 km) Meu Tempo: 19:02 horas
Chegou o grande dia. A largada foi às 07:00 horas. Largaram 86 cavalos e entre eles estava
a FLISA lá do Brasil, lá de Varginha, lá da Fazenda Santa Helena.

Não sei quem ficou mais emocionada, se foi ela ou eu, mas acredito que ela se emocionou
muito pois corcoveou e fez as primeiras 26,3 milhas até o vet.check1 com muita garra e com um
espírito muito grande de competição. Do vet.check1 ao vet.check3, ela se acalmou um
pouco e já com 62,1 milhas percorridas, estava melhor que no vet.check1. Do vet.check3 ao vet.check4, que
era a parte mais difícil da trilha, ela se portou bem e chegamos ao vet.check4 com tudo indicando
estar bem. Mas não estava pois depois que ela foi resfriada pela equipe, demonstrou um
cansaço grande e o veterinário que a examinou disse estar arrependido de liberá-la
para continuar. Disseram a ele que quem estava montando a égua era uma pessoa consciente
e que não tinha perigo e assim nós largamos às 19:00 horas para as últimas
26,2 milhas.
Nós tinhamos chegado às 18:00 horas no vet.check4 e já tínhamos
andado 73,8 milhas gastando para isto 11 horas. Faltavam 26,2 milhas e nós tínhamos 8 horas
para fazê-las. Isto me parecia fácil, não preocupei com o tempo e passei a me preocupar
com o estado da égua que parecia não ter mais energia e nem vontade para dar mais um
passo.
Do vet.check4 ao vet.check5, fomos devagar e fui deixando ela comer pelo caminho. Anoiteceu e
quando nós chegamos ao vet.check5 ela já estava em melhores condições.
Combinamos que seria levado comida para a Flisa no pit stop, entre o vet.check5 e o vet.check6.
Largamos do vet.check5, andamos, andamos, andamos e nada de pit stop. Continuamos a andar e
finalmente escutei vozes me chamando, eram os Brasileiros, eram os meus amigos, que felicidade...
Mas infelizmente tinha uma má notícia, já eram meia-noite e não iamos
ter tempo para chegar ao final até às 02:00 horas. Ainda faltavam 9 milhas e o vet.check6
com parada obrigatória de 20 minutos. O que fazer???
Pensei por alguns minutos enquanto a égua comia e decidi. Vamos tentar. Montei
e fui até o vet.check6 o mais rápido que pude.

Saímos do vet.check6 com o tempo de 1 hora para fazer as últimas 7 milhas (11,2 km).
Corri tudo o que foi possível e senti muito medo, pois a lua estava a minha frente e eu não
podia enxergar nada. Mas não podia parar, eu tinha que chegar, não podia olhar no
relógio porque iria perder tempo, não podia acender a lanterna que atrapalhava a égua.
Cheguei a reta final, já dava para ver a chegada. Os holofotes estavam cegando a égua,
agora era ela e eu que não enxergavamos nada, mas os Brasileiros, os amigos, estavam lá
e eu escutava eles gritando pelo meu nome e pedindo para que eu chegasse. Eu tinha que continuar a correr e
corri, corri até a faixa final...
Mas não havia dado tempo. Eu tinha ultrapassado em 2 minutos o tempo limite. O que fazer??? Apresentamos a
égua aos veterinários que elogiaram a condição que ela havia chegado,
completamente recuperada. Ficamos tristes, felizes e resignados. Tinhamos errado por 2 minutos.
22 de setembro: Dia do Desfile de Encerramento
No desfile de encerramento, sómente 43 conjuntos que terminaram a prova desfilariam montados.
Eu e Flisa fomos porque para nós havíamos terminado. Ganhamos escarapela e a fivela e
ficamos felizes da vida.

Depois das 17:00 horas, iniciaria a festa de encerramento e não sabiamos se íamos
ou não. Resolvemos todos ir e começamos a comemorar o ótimo resultado da
Lica. De repente me chamam, eu olho para trás e lá estava toda a organização
do evento com uma escarapela e a fivela me entregando e dizendo que minha prova tinha sido considerada
completada. Não tem como descrever a felicidade e a festa que fizemos depois disto. Teve até
um jornal em Junction City que citou o Brasil como os mais animados e barulhentos da festa.
23 a 25 de setembro:
Levamos a Flisa novamente para a fazenda que tinha sido alugada para descansar, antes de iniciar
a viagem de volta.
Ligamos para Miami dizendo que queríamos ir embora para o Brasil no vôo do dia
29 de setembro, mas o despachante disse que era impossível, porque eu teria que chegar a Miami
no máximo até o dia 25 porque ele precisava de 2 dias úteis para arrumar os
papéis para ela embarcar e a partir de 16:00 horas de sexta-feira a quarentena fechava e só
reabria na segunda-feira de manhã. Então combinamos que nós iríamos
no vôo do dia 2 de outubro.
Ligamos para o transporte e combinamos sair de Junction City para Dallas no dia 25. Acabamos
saindo no dia 26 pois havia um tornado e muita chuva no Colorado, e o trailer só conseguiu
chegar às 2 horas do dia 26 em Junction City.
26 de setembro: Junction City/Dallas (+/- 428 milhas - 10 horas)
Saímos de Junction City quase 10 horas da manhã porque ficamos enrolando o motorista
do trailer, por causa das notícias na televisão de muita chuva e tornado e para que ele dormisse
um pouco mais, pois tinha chegado às 2 horas da manhã. Chegamos em Dallas às 20:00
horas e fomos avisados que sómente na segunda-feira, dia 30 de setembro, teria carreta para Miami.
Foi um choque total (bobagem, mal sabíamos que coisas piores estavam por vir).
27 de setembro:
Passamos quase o dia todo atormentando o homem, dono do transporte, que tínhamos que estar
segunda-feira pela manhã em Miami, para poder voltar para o Brasil no dia 2 de outubro, enquanto ele
dizia que o despachante de Miami informara que a égua só iria no vôo de sexta-feira,
dia 6 de outubro. Telefonamos para Miami e tanto amolamos o homem que ele arranjou um carreto saindo
dia 28, passando por Santo Antonio e chegando a Miami na segunda-feira.
28 a 30 de setembro: Dallas/Santo Antonio/Miami (+/- 1.674 milhas - 42 horas)
Saímos de Dallas às 18:30 horas do dia 28 e viajamos a noite toda. Dia 29
viajamos o dia todo e novamente a noite toda. No dia 30 chegamos em Miami às 15:30 horas,
na fazenda em que a Flisa iria ficar até o dia do embarque. A dona da fazenda nos comunicou que o
despachante já estava providenciando o embarque da égua. Finalmente fomos dormir.
1 a 11 de outubro:
Dia 1 de outubro, terça-feira, fomos logo cedo ao escritório do despachante que descobriu naquele
dia que os documentos da égua tinham vencido no dia anterior, dia 30. Ela não
poderia retornar ao Brasil com os mesmos papéis, a não ser que viesse do Brasil um fax
dizendo que aceitariam o seu desembarque com os mesmos papéis. Telefonamos para o Brasil
e não conseguimos nada. A outra opção era fazer novos exames e um novo
sanitário. O exame era feito sómente às sextas-feiras, então tudo ficaria
pronto na segunda-feira, dia 7 e embarcaríamos na quarta-feira, dia 9.
Fomos todos os dias à fazenda ver como a égua estava passando, quando no dia 3
apareceu uma febre e uma gripe muito forte. A sorte é que o Dácio ficou com a gente e começou
imediatamente a medicá-la e em três dias ela ficou boa.
Dia 7 telefonamos para o despachante para saber se os exames ficaram prontos e se íamos
mesmo dia 9. Não, não íamos. Os exames e o sanitário estavam prontos, mas
o avião estava quebrado e não ia ter vôo no dia 9, talvez dia 11.
Dia 10 fomos ao escritório do despachante, que ligou para a companhia aérea, para
confirmar se teria vôo dia 11. Lá disseram que não sabiam, talvez, às
24:00 horas.
12 e 13 de outubro: Miami/Rep.de Trinidad/Rio de Janeiro/Campinas/Varginha (+/- 8.400 milhas - 22 horas)
Dia 12 às 02:50 horas, toca o telefone para que fossemos a quarentena para
enviarmos a Flisa para o avião, afinal. Às 04:15 horas já estavamos
dentro do avião e prontas para partir, mas o avião estava em reparo e nós
saímos sómente às 06:00 horas (08:00 horas no Brasil).
Aterrizamos em Trinidad às 09:00 horas, no Rio de Janeiro às 17:00
horas (hora local), em Campinas às 20:50 horas e fomos liberados às 23:00 horas.
Saímos de Campinas para a nossa última etapa às 24:00 horas e
chegamos finalmente em casa às 06:00 horas do dia 13 de outubro de 1996, totalizando
aproximadamente 20.816 milhas (33.305 km) em 149 horas e 02 minutos
(6 dias, 5 horas e 2 minutos) de enduro, nós e a Flisa.
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