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Reportagem



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DIAS DE GARRA


Data: 07/11/97


Primeiro pensei em escrever um livro, mas logo desisti da idéia. Não que tudo que passei, ou melhor, tudo que passamos não mereça um livro, simplesmente percebi que não tinha talento para tanto. Os jornais no Brasil, no dia seguinte à prova do "Panamericano de Enduro Equestre", não deram nas suas principais manchetes a colocação da equipe brasileira. Mas o que aconteceu durante os dez dias em que estive em Bend, Oregon/EUA, jamais sairá da minha lembrança. Foram dias de garra e stress, muito stress.

Quatro dias antes da largada nossos cavalos estavam na seguinte situação. O "Chupa Cabra" do Ariel, assim o chamávamos pelo seu aspecto nada empolgante, tinha forte dores no dorso. A Ana Luíza com seu cavalo que ao que tudo indicava não teria condições de largar, pois mancava dos anteriores. Chega-nos a trágica notícia que ao embarcar no trailler da Califórnia para o Oregon, a montaria da Lica havia ferido o tendão dianteiro e por consequência era desfalque certo. Naquela terça-feira fui fazer meu treino final de apronto, enfim com o meu cavalo (D.H.C. Nassahr, "F.T." para os íntimos). Estava tudo bem e até então eu só o havia montado por duas horas. Veio a novidade, a única que nos faltava, "F.T." havia se machucado com o peitoral da minha sela e era mais uma incerteza para a largada.

Uma onda de desconfiança, aliada a muita garra baixou sobre nossa equipe. Nenhum de nós quis se entregar às evidências de que talvez não pudéssemos ter uma participação como havíamos sonhado. Uma colocação aquela altura parecia tão possível quanto os E.U.A. ganhar uma copa do mundo de futebol. Tínhamos a nosso favor, a garra e dedicação de toda nossa equipe. Foram invocados bruxos de todas as espécies - quiropratas, massagistas, veterinários, peões e dirigentes. E sabe-se lá como, no dia do Pré-Vet tinhamos todos os cavalos em condições de enfrentar a prova. As montarias da Ana Luíza e da Lica, eram absolutos desconhecidos para suas amazonas e tiveram as duas que utilizar animais reserva. Fica aqui minha homenagem à pessoa que sem dúvida, foi a principal responsável pelas soluções encontradas para que os quatro tivessem montaria na largada. Elizabeth, Super Obrigado!!!

Seriam sete Vets mais a chegada totalizando 160 Km (cento e sessenta quilômetros). Às 5 horas do dia 13 de setembro foi dada a largada. Como havia planejado com a Dory (proprietária do F.T.), deveria deixar o F.T. escolher seu próprio ritmo até o primeiro Pit-Stop. Foi com grande surpresa que a Nancy e o Paulo Fasano receberam-me no primeiro Pit Stop, junto com o pelotão da frente. Broncas à parte, fui o primeiro brasileiro a chegar no 1º Vet, vinte minutos atrás do primeiro colocado (alguns exagerados disseram que eu cheguei com o primeiro pelotão).

Para o segundo Vet largamos praticamente juntos, Ariel, Ana e eu. A Lica vinha mais atrás e sua égua já preocupava a todos. Assim seguimos até o 4º Vet. Não mais de cinco minutos nos dividiam. Veio a primeira frustação. No 3º Vet a Lica havia sido desclassificada. Mandala, sua égua, não mostrava sons intestinais satisfatórios. A partir daí, teríamos os três de finalizar a prova, pois o nosso descarte por equipe já havia sido queimado. F.T. passou rápido pelo Vet, menos de cinco minutos, mas havia recebido "C" no quesito hidratação (com um "D" estaria fora). A decisão seria de seguir mais devagar, dando bastante tempo para que F.T. se recuperasse.

Ao chegar no 5º Vet, fui recebido com muita preocupação pela equipe. Entusiasmo não faltava aquele pessoal. Darlene, uma pessoa maravilhosa, daquelas que raramente a gente encontra na vida, ao ver-me chegando uma hora e meia mais tarde que o normal para aquele trecho, logo entendeu que algo não seguia bem. De fato não ia, F.T. mostrava-se indisposto sem vontade de seguir e tive de puxá-lo pelo menos meia hora naquele trecho.

- Smile, disse-me Darlene.

Tudo o que se passou deste instante até o fim da prova, foram momentos dos mais emocionantes da minha vida. F.T. mais uma vez mostrando sua competência como endurista passou pelo Vet-Check com apenas 12 minutos, mas desta vez o veterinário responsável o havia mandado retornar antes da largada, pois suspeitava de algum problema na sua ferradura. Dennys, o ferreiro que havia nos adotado como equipe, resolveu o problema rapidamente e mais uma vez estavamos prontos para seguir, mas nem tanto. Karma, meu apoio oficial, juntamente com o Dr. Gerson, tomaram uma atitude correta e decidiram que apesar de autorizado a prosseguir, F.T. deveria ficar pelo menos mais uma hora recuperando-se "Acho que a esta decisão devo o fato de ter conseguido concluir a prova". Duas horas após ter chegado ao 5º Vet estava pronto para seguir.

Passaram-se sete anos do meu primeiro enduro, muitas emoções eu tive; o Campeonato de 1993, a primeira vez que concluí uma prova de 100 Km; a chegada da Tevi’s Cup; a entrega de prêmios como Top-Ten do Out-Law Trail, mas nada poderia comparar-se com a emoção da chegada no 6º Vet. Eu sabia que F.T. havia se recuperado neste trecho, sua vontade de seguir era outra, suas orelhas estavam atentas como no começo da prova e ele queria acabar aquelas cem milhas tanto quanto eu. A noite já chegava quando vi uma grande fogueira, era o 6º Vet. Minha turma a essa altura da prova já superava as quinze pessoas.

- Como ele está? alguém perguntou.

- Ele está Ok!, disse confiante.

Gritos, muitos gritos. Darlene chorou de alegria, todos vibravam muito e parecia que agora estava tudo bem.

Em menos de dez minutos F.T. estava dentro do Vet. Desta vez ele passou com um "C" pelos movimentos de posterior, mais um susto. Enquanto recebia uma massagem maravilhosa, de alguém que havia conhecido ali no dia, os voluntários da prova trouxeram-me comida quente. Outra vez o pessoal da equipe optava por mais uma hora de descanso para F.T. Sessenta e muitos minutos depois, com as baterias recarregadas, F.T. e eu estavamos prontos para seguir. Já passava das 22:00 hs, eu era o último competidor na trilha quando o impossível aconteceu. O veterinário que lhe havia conferido o "C" quiz reexaminá-lo. Após um breve trote, consultou a uma colega e me liberou para seguir. A minha emoção foi parecida com a de um goleiro ao agarrar um penalti batido pelo Pelé. A equipe era a torcida do meu time.

Ao som dos coiotes puxei F.T. por duas das três horas totais até o 7º Vet. Desta vez sem sustos, tivemos boas notas e podíamos seguir para a chegada. Jerry (meu companheiro de último lugar) e eu trotamos a uma velocidade de 10 km/h até a linha de chegada. Era 1:30 hs da manhã quando avistamos as luzes e Jerry não quiz chegar lado a lado, portanto cruzamos a galope. Ele venceu por focinho, mas isso não fazia a mínima diferença, éramos todos campeões.

Mas a prova ainda não havia acabado e tinhamos de apresentar F.T. à inspeção final. Os que estiveram lá sabem a ansiedade que foi passar por este último Vet. -Pass!!! - ouvimos do veterinário. Para mim só faltou gritar, jogar o capacete para cima, ajoelhar e chorar, muitos foram os abraços e lágrimas que se somaram aquele momento.

Achei que escrevendo o que se passou seria uma forma de agradecer a todos que tornaram aquele quarto lugar por equipe algo tão especial.

Meu muito obrigado a:

- Alegria
- Ana Luíza
- Ariel
- Dr. Beto
- Claudio Bagarolli
- Profº Claudio Pavanelli
- Clarice
- Débora
- Djalma
- Edson Rocha e filha
- Elizabeth
- Fabiana
- Dr. Gerson
- Dr. Grillo
- Ilian e Camila
- Jair
- Lica
- Nancy
- Dr. Paulo Fasano
- Patrícia
- Pedro Werneck
- Reinaldo Leão e família
- Dr. Renato Lotufo
- Dr. Roberto Fernandes
- Rosa
- Sharon e Crockett Dumas
- Silvia Vacari
- Terry

E meu muito mais que obrigado à:

- Darlene
- Dory Jackson
- Karma

E a todas aquelas pessoas maravilhosas que pelo amor ao esporte ajudaram o F.T. e a mim a cruzar a linha de chegada.

 

Léo Steinbruch




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